quarta-feira, 18 de julho de 2018

Vive há Mil Anos

Vive há mil anos.
Como morreu não sei
meu velho amigo vai por cima da
vida e ainda assim
há mil anos que lambe a ferida
sem morder
sem morrer.
Sente culpa por sobreviver
tem quase mil anos
que o meu amigo sente uma culpa
que já não o preocupa. Não tem
pensamento que o faça desesperar
a não ser o alimento que à noite
é obrigado a procurar.
Ele não é vampiro, dragão
não é o sangue e os inocentes
que mais dias lhe dão
não há dor na sua mesa
não tem de fugir da luz do dia
cicatrizes não se mostram na face
seu lume não chega a ser cinza.
Há muito que ele não sabe porque está acordado de noite.
Há muito que ele não sabe porque ficou de noite.
Há muito que ele sabe que cada dia vai para cima
da vida. Não se esconde debaixo da terra
vai pelos campos, rios e fogueiras
chama de nilo e deserto seu ribeiro
secreto.
Imagem, palavra, som -
não dizem tudo dele
imitação de gente nele é mais que gente
no dia que não encontrar beleza
ele morre para sempre. No dia
que encontrar seu amor pode
morrer como um homem.
Sei que ele dará um jeito para não morrer.
Meu amigo é aquela pessoa, que
tem sentido quando fala:
A noite é tão doce que caçoa.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Tomara eu ter cabeça

Tomara eu ter cabeça
Mais cabeça,
Mais neurónios
Tomaria teu coração
Trespassaria
Teus demónios
Tomara eu ter mãos
Mais dedos,
Mais cordas
E uma janela
Tomada pelo mar
Como aquela
Em Tomar
Acendendo
Uma caravela

quinta-feira, 4 de maio de 2017

As coisas caem-me das mãos

As coisas caem-me das mãos
silenciosas como as luzes
- outro fogo voa,
meu canto meia lua 
cega na gravidade 
das paredes da cave.
Caem pensamentos, pousam

novelos nos arquivos com
a indiferença da rua,
sentado no lado de dentro
do labirinto nada
fala mais alto, grita,
não marca,
não deflagra a
bomba programada
no render da hora
dispersa...
Mesmo se o mundo partisse
não se ouviria;
mesmo que fosse tua vontade
não podes - não há nada a dizer
sobre ter-te dentro de mim como

a grande arma que explode
pelos tempos e tempos.

.......



Deixo cair muitos objectos das mãos. Por ser trapalhão, por querer fazer as coisas rápido, por insistir em transportar várias coisas ao mesmo tempo. O que me intriga é a falta de firmeza que adivinho nas mãos que acontece em maior grau depois de acordar. Pode acontecer a preparar o pequeno almoço, a preparar as coisas para sair de casa. Assusta-me que seja o resultado subtil de alguma dificuldade física motora. Muito pior do isso é quando a queda do objeto permite chegar a constituir-se um sinal de mau presságio, como se carregasse algo de muito valioso para além do objecto em questão e não o soubesse ou o pudesse agarrar. O poema nasceu com essa percepção, ligado a um sentimento de culpa pela falta de atenção, uma sensação de falta de cuidado com algo que é bem mais importante do que um objecto doméstico, um copo, umas chaves, um comando ou mesmo um smartphone com um ecrã sensível aos choques.
Quanto à ligação ao poema só adiantaria que o ruído da queda do objecto físico perde qualquer potencial valor sonoro quando comparado com o estrondo interior da percepção de uma perda prolongada no tempo. Uma perda nascida muito tempo atrás e que resiste como um eco corrompido que não permite ao sujeito poético decifrar a relaçao da sua perda. Ou por outras palavras, trata-se de uma reconstituição infinita de uma imagem que procura incessantemente ser reelaborada através de um processo de recuperação de fragmentos dispersos, sendo que só desta forma consegue encontrar um sentido de permanência.
Tudo mais que pode ser muito ou pouco deixo à consideração do leitor.

Introdução

Com este espaço procuro reunir poemas que escrevi por alguma razão, mesmo que muitas vezes eu próprio desconheça qual é.
Mesmo sabendo que a poesia não se explica, neste blog farei alguns comentários sobre poemas sempre que .... me apetecer, porque parece-me que mais de um desejo profundo ou uma necessidade interior, os meus poemas surgem como impulsos que se mostram à superfície mais parecidos com apetites motivados pela manifestação sintómica da falta de alguma coisa que, mais uma vez, raramente sei qual é, e não participa de forma directa no tema dos versos.
Como em tudo há excepções. Como em quase tudo na poesia há fingimento e fingimentos de fingimentos. Mas em tudo mais não podia haver mais sinceridade, como é sincero quando digo que cada vez que escrevo um poema penso que vai ser o último. Um dia terei razão...
Para já é só :)