As coisas caem-me das mãos
silenciosas como as luzes
- outro fogo voa,
meu canto meia lua
cega na gravidade
das paredes da cave.
Caem pensamentos, pousam
novelos nos arquivos com
a indiferença da rua,
sentado no lado de dentro
do labirinto nada
fala mais alto, grita,
não marca,
não deflagra a
bomba programada
no render da hora
dispersa...
Mesmo se o mundo partisse
não se ouviria;
mesmo que fosse tua vontade
não podes - não há nada a dizer
sobre ter-te dentro de mim como
a grande arma que explode
pelos tempos e tempos.
.......
silenciosas como as luzes
- outro fogo voa,
meu canto meia lua
cega na gravidade
das paredes da cave.
Caem pensamentos, pousam
novelos nos arquivos com
a indiferença da rua,
sentado no lado de dentro
do labirinto nada
fala mais alto, grita,
não marca,
não deflagra a
bomba programada
no render da hora
dispersa...
Mesmo se o mundo partisse
não se ouviria;
mesmo que fosse tua vontade
não podes - não há nada a dizer
sobre ter-te dentro de mim como
a grande arma que explode
pelos tempos e tempos.
.......
Deixo cair muitos objectos das mãos. Por ser trapalhão, por querer fazer as coisas rápido, por insistir em transportar várias coisas ao mesmo tempo. O que me intriga é a falta de firmeza que adivinho nas mãos que acontece em maior grau depois de acordar. Pode acontecer a preparar o pequeno almoço, a preparar as coisas para sair de casa. Assusta-me que seja o resultado subtil de alguma dificuldade física motora. Muito pior do isso é quando a queda do objeto permite chegar a constituir-se um sinal de mau presságio, como se carregasse algo de muito valioso para além do objecto em questão e não o soubesse ou o pudesse agarrar. O poema nasceu com essa percepção, ligado a um sentimento de culpa pela falta de atenção, uma sensação de falta de cuidado com algo que é bem mais importante do que um objecto doméstico, um copo, umas chaves, um comando ou mesmo um smartphone com um ecrã sensível aos choques.
Quanto à ligação ao poema só adiantaria que o ruído da queda do objecto físico perde qualquer potencial valor sonoro quando comparado com o estrondo interior da percepção de uma perda prolongada no tempo. Uma perda nascida muito tempo atrás e que resiste como um eco corrompido que não permite ao sujeito poético decifrar a relaçao da sua perda. Ou por outras palavras, trata-se de uma reconstituição infinita de uma imagem que procura incessantemente ser reelaborada através de um processo de recuperação de fragmentos dispersos, sendo que só desta forma consegue encontrar um sentido de permanência.
Tudo mais que pode ser muito ou pouco deixo à consideração do leitor.
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